domingo, 3 de março de 2013

O analfabeto e os universitários


Havia nos anos setenta, no norte do maranhão, numa localidade rural, um certo  cidadão muito conhecido, pela fama de sábio, apesar de analfabeto.
Seu Maneco, como era conhecido, certa vez foi convidado para uma palestra de um grupo de universitários. Jovens bonitos da cidade, bem vertidos e cheios de muitos conhecimentos.
Sabendo da presença de um cidadão analfabeto, no recinto da  palestra, quiseram entrar na questão do conhecimento formal, para provar que, por mais conhecido, sábio, ou rico que uma pessoa seja, não passa de um ignorante, se lhe falta conhecimentos formais. Aprenderam que para incentivar as crianças, adolescentes e jovens a estudar tinham de defender a bandeira da educação, e em nenhum momento defender os ignorantes.
Depois da apresentação dos jovens ao público presente, uma jovem, loira e muito bonita falou da satisfação que era, está ali, com o grupo. A visita dava-se por conta de um convite que o prefeito fizera, à reitora da universidade que era sua amiga. Ela havia prometido a ele que mandaria para sua cidade um grupo de universitários para darem uma palestra sobre educação.
As falas aconteciam num clima de empolgação dos palestrantes (os universitários) e muita atenção por parte do público. “Tudo por uma educação”, era o tema do encontro.
Não há riqueza sem educação, falava a jovem loira já mencionada acima. Continuando, dizia: por puro acidente uma pessoa pode adquirir bens sem saber ler e escrever. Se adquirir, ainda assim,  não passa de ignorante.
Seu Maneco ...sim, seu e não Sr. Maneco. O cidadão que apresentamos no início do texto. Ele ouvia tudo atentamente. Aquele discurso parecia ser dirigido contra ele,  já que era enaltecido o poder do estudo e ao seu modo de ver, humilhado o analfabeto. Afinal, ele era um.
Num certo momento uma mão levantou-se no meio da plateia. Exatamente, era seu Maneco: Senhores ...a plateia ficou atenta. Continuou ele: jovens universitários, senhores doutores do amanhã! Eu não aprendi a ler e nem escrever, e nem quis ser matriculado no Mobral (movimento brasileiro de alfabetização), mas admiro muito quem sabe ler. E quem sabe ler e viver bem com o que ler. Digo, interpretando o que ler e transformando em progresso para um mundo, onde o ter não supere e nem ofusque o ser. Onde a grandeza do homem não dependa  necessariamente do poder do dinheiro e nem do poder dos que lêem  e encontram na leitura, motivos para humilharem o mais pobre ou o analfabeto, simplesmente por acreditarem que o saber dar poder, e o poder,  o direito de desrespeitar.
Senhores universitários, estudem e sejam doutores. Ajudem a construir o mundo e ajudem financiar os estudos dos menos favorecidos. Logo mais, eu posso não está  aqui, mas o que deixo servirá de lição, e vocês poderão transformar a lição em história, e dizer que um analfabeto encontrou, pelas graças de Deus a condição de patrocinar a universidade que está formando vocês...
Fez-se um silêncio naquele momento! Aquela plateia, até ali não sabia que a riqueza do homem analfabeto  do discurso, patrocinava a universidade da capital. Na continuação do discurso, seu Maneco acrescentou: Sejam doutores para ensinarem e não para menosprezarem, porque, o que tem de bom dentro do homem é que é o melhor para ele, e, se semeado, servirá para uma multidão de homens!

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